domingo, 24 de abril de 2011

O combinado

Já estava acordado havia algum tempo. Já fizera tudo de mais importante que tinha para fazer, e mesmo assim estava extremamente entediado. Sabia que precisava ir, mas estava com muita preguiça.
Sua preguiça era épica: mesmo que estivesse com todo o tédio do mundo acumulado, mesmo que tivesse descansado por uma semana inteira, mesmo que tivesse todos os motivos para ir, a preguiça ainda lhe induzia à desvontade. Porém, como havia combinado com ela, ele sabia que precisaria ir - não podia quebrar algo que havia combinado.
Respirou fundo e torceu para que ela já tivesse acordado e que ainda lembrasse do combinado. Botou uma roupa, escovou os dentes, pegou sua mochila e saiu.

Ela acabara de acordar. Ainda estava meio desorientada, xingava seu despertador por não ter tocado. Lembrava-se do combinado, mas não tinha certeza do horário. Sabia que tinha que correr, mas não era seu temperamento - ao invés, ela checou suas mensagens, comeu umas torradas, tomou banho e escovou os dentes, no ritmo de sempre. Pegou o livro que andara lendo, suas chaves, seus óculos escuros e saiu.
Quando ela chegou, ele já estava lá esperando por algum tempo, mas não parecia se importar. Como já a conhecia, sabia que ela provavelmente se atrasaria.
- Então vamos!
Entraram.

- Senhor, eu imagino que isso não aconteça muito, mas espero a sua compreensão: isso é um assalto, queremos levar dois bolinhos de bacalhau, eles serão nossos filhos.
O atendente não correspondeu à compreensão esperada - ficou simplesmente olhando para os dois, tentando entender por que eles estavam roubando dois bolinhos de bacalhau, e como seriam seus filhos.
- É uma longa história. E sentimos muito. Mas não podemos comprar nossos filhos, concorda? Seria imoral. E como nenhum de nós sabe fazer bolinhos de bacalhau, precisamos roubá-los. É o único jeito, tente entender.
O homem ainda estava atônito, e claramente não entendia. Mas ele não tinha muita escolha, visto que os dois estavam com armas e ele portava somente uma caixa de guardanapos.
- O..ok.  Toma, podem ir.
- Obrigada!
Saíram.

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