Pensou em escrever seu obituário. Desistiu - nunca tinha lido um obituário, não sabia como era um. Contribuira também o fato de não pretender morrer nas próximas horas e, se morresse, não consideraria isso motivo o suficiente para um obituário.
Lógico, obituários são escritos quando pessoas morrem - a morte é o motivo de um obituário, e motivo bem suficiente. Mas não tinha muito o que dizer sobre a sua própria morte.
Diria o que? "Morri"? Não, seria muito óbvio... era evidente, mesmo para o mais desatento leitor de obituários, que estes costumavam ser sobre pessoas que haviam morrido. Tampouco desejava contar obituarísticamente a sua história para que qualquer desconhecido curioso se interessasse (ou morresse de tédio). Desistir era, de fato, a melhor escolha, embora lhe incomodasse um pouco não desenvolver a sua idéia.
Se espreguiçou na cadeira dando uma última chance ao pensamento. Contudo, a cadeira era chinesa e prontamente desmontou-se, jogando-o no chão. A terceira lei de Newton, que não perdoava, jogou o chão contra sua cabeça com igual intensidade e sentido contrário, resolvendo em um instante seus problemas: agora era trabalho de uma outra pessoa se preocupar com seu obituário, que deveria estar pronto para o jornal da manhã seguinte.
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