sábado, 30 de julho de 2011

O sonho

A câmara já estava em vácuo (ele chamava esta condição de "evacuada", denominação que provocava risadas alheias quando proferida), já tinha um fluxo regular de argônio e a pressão fora ajustada. A festa estava correndo como deveria, com um estilo pentacentenário condizente com o ambiente - um grande salão clássico, pé direito altíssimo, grandes espelhos e chão coberto por mármore.
O plasma era roxo, escuro, e era possível ver pequenos substratos logo acima dos alvos, algo levemente distante do comum. As vigias da câmara também estavam um pouco deslocadas para baixo, possibilitando a visão perfeita da deposição - ignorantes, logicamente, ao fato de que a ejeção atômica é onidirecional.
A orquestra de câmara (de classificação interessantemente coincidente com o aparato externo à deposição) tocava algo que lembrava Vivaldi e o público apreciava a festa, como se fosse a primeira (ou mesmo a última) de suas vidas.

Por uma falha sináptica qualquer, ele acidentalmente abriu a válvula externa enquanto explicava o funcionamento da parte traseira do sistema, o que levou à entrada de oxigênio e ao aumento na pressão. Sabia que o oxigênio seria desastroso na presença do plasma, mas estava mais preocupado com o óleo quente da bomba. Ela, ainda sem a percepção integral da dinâmica sistêmica, sabia somente que aquilo não deveria acontecer; o que fazer a respeito, contudo, desconhecia. Ele também. As únicas palavras proferidas pelos dois, em unissom, foram "E agora?".
Toda a ação, embora observada em detalhes, levou poucos milisegundos - tão logo percebeu o seu toque na válvula, ele reverteu o processo. No entanto, esta pequena janela foi suficiente para que a bomba desarmasse, tornando o leque de opções deles restritamente difícil. Como um elefante hindu de quatro braços, sem a mínima atribuição teológica, fechou as válvulas, desligou as fontes e tentou religar a bomba, somente para perceber que a festa acabara e que o salão estava vazio. Vivaldi, que teria provido um acompanhamento tão adequado à trama, cessara imperceptivelmente. Já havia dado a hora, o sistema estava desligado e ela, outrora ali, fora para casa.
A deposição não era mais problema, tampouco o óleo da bomba. Estava do lado de fora, observando as plataformas de petróleo sendo levadas a alto mar, alheias à sua existência. Nada mais o importava, senão o que queria. E como o que queria lhe era inviável, nada mais o importava.

Acordou

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